Monday, July 20, 2009

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído Num grande mar enganador de espuma; E o grande sonho despertado em bruma, O grande sonho - ó dor! - quase vivido... Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim - quase a expansão... Mas na minh'alma tudo se derrama... Entanto nada foi só ilusão! De tudo houve um começo ... e tudo errou... - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, Asa que se enlaçou mas não voou... Momentos de alma que, desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei... Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios... Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí... Hoje, de mim, só resta o desencanto Das coisas que beijei mas não vivi... Um pouco mais de sol - e fora brasa, Um pouco mais de azul - e fora além. Para atingir faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

Saturday, December 20, 2008

Soror Mariana e Florbela

O curso está no fim e não sei até quando esse blog fará sentido, se é que um dia fez – antes de ele existir, criei o Levianos, que continua vivíssimo. Mas, agora que tenho tempo, decidi publicar algumas de minhas produções acadêmicas – só as melhores – e esse é o lugar.

Aula de Literatura Portuguesa: Barroco. Estudamos as cartas de Soror Mariana Alcoforado.

TERCEIRA CARTA (tradução portuguesa)
Que será de mim?....e que queres tu que eu faça?...
Vejo-me bem longe de tudo o que tinha imaginado!


Mariana viveu de 1640 a 1723 em Portugal. As cartas, dirigidas ao cavaleiro de Chamilly, foram publicadas em Paris no ano de 1669. Só em 1810, a autoria foi atribuída a Sóror Mariana, mas isso não é confirmado.
São, em suma, cartas de amor, como vimos acima.

Trabalho: escreva uma carta de amor em estilo Barroco. Vale 1 ponto.


Em algum lugar do vazio, 04 de dezembro de 2006.

Meu doce e amargo canalha,
Escrevo porque nada pode calar meu coração que grita um grito mudo desde que você partiu, levando consigo minha triste felicidade de outrora. Quis correr e prendê-lo, mas caída fiquei a seus pés no momento que já não estava.
Aguardei paciente na minha inquietude que o tempo se encarregasse de apagar as eternas marcas que você me deixou. Impossível. Os dias passo a lembrar doidamente o que esqueci.
Sei que pedi para me deixar e estava certa em fazê-lo, mas agora perdida estou. Preciso perder-me em você para me encontrar.
Quero de volta suas odiosas gentilezas, seu mal-humor agradável e, sobretudo, suas mentiras sinceras.
Não volte, continuarei esperando.


Usei referências de Florbela Espanca (“lembrar doidamente o que esqueci” e “perder-me em você para me encontrar”). Dois anos depois, estudando Florbela e o modernismo português, soube que a poetisa recebera forte influencia das cartas de Sóror Mariana Alcoforado. Eu não sabia, mas o professor sim, que também sabia bem das minhas intertextualidades com Florbela. Ganhei 1 ponto pela carta.

Monday, January 14, 2008

O prato do dia

Deixei-me cativar, seduzir, envolver. Embora torcesse o nariz, embebi-me toda dela. Doce. Alegre. Colorida. E mais que isso: genial! Escondida na minha infância à margem de qualquer estímulo cultural, a literatura infanto-juvenil fez-se viva assim que me vi crescida.

Recomendo.

Thursday, December 13, 2007

When the lights are turned off, can everything change?


To Calvin, a little boy with some fears


and too much imagination, yes, everything can change!



Friday, July 20, 2007

Coming soon

Depois de o sucesso de A Gata Zoel, a Editora Aqui Acolá apresentará:

Calvin in the Dark
Em Setembro.

Thursday, June 28, 2007

Saturday, March 24, 2007

O Noivado do Sepulcro
Soares de Passos


Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?

"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?

"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!

"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!

– "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
– "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?

"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
– "Oh vejo sim... recordação fatal!
– "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.

"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,

"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios do cantor funéreo,

E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro.